30 de junho de 2020

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Psicóloga Ane Freire de Alcântara alerta para a importância de cuidar do emocional para enfrentar o atual momento e adaptar-se ao novo

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Ane Freire de Alcântara

O atual cenário, ocasionado pela pandemia do novo coronavírus, tem provocado diversas reações em nossa mente e diferentes situações são observadas em nosso cotidiano. Quem nos explica mais sobre o assunto é Ane Freire de Alcântara, psicóloga com forte atuação em atendimento clínico, pós-graduada em Teorias Psicanalíticas pela Unifor e mestranda em Psicanálise pela Universidade Kennedy, em Buenos Aires.

IN CONNECTION – De início, o vírus parecia algo bem distante, já que começou na China, com o tempo, foi ficando cada vez mais próximo. Como você acredita que conseguimos lidar com algo que parecia fora de nossa realidade e que, agora, está diretamente ligado a nossa vida?

ANE  ALCÂNTARA- Assistíamos às notícias em estado de compadecimento. De repente, um super vírus que não afetou somente o corpo, afetou a mente, criando outra pandemia: a da ansiedade. Essa ansiedade, que é natural diante de algo que nos expõe ao perigo, mas, às vezes, ganha um volume hiper dimensionado pela avalanche de informações ou desinformações que nós mesmos viralizamos. Uma forma sábia para lidar com essa situação foi a da escolha de como filtrar as informações. O cenário era novo, portanto, como não tínhamos registros, nos sentimos desamparados. O suporte emocional passou a ser fundamental e a terapia psicológica foi adaptada a “forceps”, mas com sucesso. Iniciei uma nova fase com os atendimentos on-line. O autoconhecimento, a importância em identificar a causa do sofrimento que envolve o paciente e, não somente, entorpecer o sintoma. Ainda estamos nos adaptando a um “novo normal”. Preservação e proteção serão palavras de ordem.

IC – Com o isolamento social, passamos a nos deparar com uma nova forma de viver. Como vem ocorrendo essa adaptação e quais as principais dificuldades?

AA – O isolamento abrange a não socialização e já estamos acostumados com as convivências que selecionamos ao longo da vida. Percebemos que alguns de nós não suportamos a própria convivência e, por esse motivo, nos habituamos a conviver com o que está lá fora, de repente, fomos parados a solavanco. A convivência familiar aumentou gerando diversas reações que tivemos que nos adaptar e repensar. Nesse novo momento fomos obrigados a nos observar e, assim, constatamos que é possível sim viver de uma forma diferente. A massiva variedade de comunicação facilita por um lado, pois gera a informação, por outro lado, passamos a lidar com o excesso de imagens. Constatei de forma recorrente entre as queixas, que a idealização da imagem perfeita aumenta a frustração e a baixa autoestima.

IC – Euforia, tédio e tristeza são três fases que podem ser observadas durante o período de isolamento. Fala um pouco sobre cada uma delas.

AA – No primeiro momento surge uma euforia, um misto de sentimento de estarmos de férias com o sentimento de vamos trabalhar em casa. Vamos ter mais tempo, surge a falta de rotina. A rotina é organizadora e sem uma programação é gerado um estado de agitação. O medo da doença permanece. Em um segundo momento estabelecemos um “novo normal”, surge então tédio com a falta da convivência social, saudade dos parentes e amigos. No terceiro momento percebemos a tristeza. Foi quando o número de vítimas explodiu nos fragilizando e nos deixando vulneráveis emocionalmente. Estávamos protegidos dentro das nossas casas, mas os nossos pensamentos vagavam inseguros. Aqui, pude observar o aumento da busca por suporte psicológico on-line. As pessoas ocuparam as varandas para estabelecer um contato com vizinhos e externar suas dores e compadecimentos.

IC – Neste atual cenário, muitas pessoas sofrem com insegurança social e financeira. O que é possível fazer para amenizar esse problema?

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Ane Freire de Alcântara

AA – Estamos atravessando um trauma social e, dificilmente, seremos os mesmos de antes. A insegurança financeira será amenizada gradativamente seguindo o movimento do mercado de trabalho. Uma forma de amenizar o impacto seria entendermos as mudanças e procurarmos ser flexíveis para o novo formato que foi estabelecido. Desempregos surgirão, é fato, porém novos nichos e novos negócios prosperaram. O foco não deveria estar em: como as coisas vão ficar? E sim em: o que eu posso fazer? Já existem programas para ajudar a população. Governos e agentes econômicos podem ajudar a reerguer a economia, já vimos duas grandes guerras mundiais.

IC – O desgaste familiar também é uma queixa recorrente. A que você atribui isso e o que é possível fazer para evitar a situação?

AA – Acredito que uma das maiores dificuldades geradas a partir desse grande convívio familiar foi aceitar ou reconhecer o quanto nos distanciamos da família. A era digital aproximou os de longe e distanciou os que estão ao nosso lado. A convivência em tempo integral sob o mesmo teto é uma situação inédita para muitas famílias. A crise nos deixa mais sensíveis e vulneráveis. Aqui, se faz necessário uma grande dose de paciência para percebermos e respeitarmos as diferenças com as suas múltiplas circunstâncias. Em casa temos a tendência a querer ter o controle de tudo. Não controle e sim controle-se! Quando um membro da família faz terapia a família toda é envolvida.

IC – O meio digital foi fortalecido e vem se mostrando eficiente. Quais as vantagens do crescimento do “mundo virtual” no relacionamento interpessoal?

AA – Nesse novo contexto, ter automotivação, proatividade e disciplina, se faz necessário tanto para os profissionais em esquema de home office, como para os alunos que assistem aulas on-line. O espaço privado precisa ser respeitado quando usado como ambiente de trabalho ou estudo. Os relacionamentos interpessoais também sofrerão ajustes, acredito que nos adaptaremos e as relações interpessoais vão investir em qualidade em detrimento da quantidade. Na área da psicologia o atendimento on-line correspondeu de forma positiva, facilitando a confiança. Realizo as minhas sessões através de videoconferência. Sou voluntária em programa nacional onde atendo pacientes da área da saúde. Iniciei uma técnica já bem conhecida dentro da psicologia: o aconselhamento psicológico, onde é predeterminado o tempo do tratamento. Em alguns casos, apenas três sessões correspondem para reposicionar o sujeito em harmonia para lidar com seu novo momento.

IC – Durante esta fase, muitas pessoas perderam entes queridos e amigos. Como lidar com o luto de uma forma menos penosa e sem grandes prejuízos emocionais?

AA – O mapeamento das mortes dessa pandemia pode ser registrado e publicado, porém, o mesmo não acontece com outro aspecto derivado dessa mesma pandemia porque é menos visível. A saúde mental de uma população que, há meses, arqueja impotente e silenciosamente diante de uma realidade que não estávamos preparados para enfrentar: o luto. A perda não reside somente no desaparecimento físico de uma pessoa. O luto pode também ser a perda de um emprego ou de um lar. O isolamento social interditou os funerais e as cerimônias religiosas dificultando a elaboração da perda que se faz necessário para que processemos a representação do luto. O luto desorganiza a vida e requer cuidados especiais. Profissionais da área da saúde mental podem contribuir com terapias para amenizar o sofrimento e estruturar uma reelaboração do significado da perda. Quanto mais cedo existir o acompanhamento psicológico mas fácil será minimizar o sofrimento.

IC – E o mundo pós-pandemia? Você acha que existirá um “novo” normal?

AA – Eu, sinceramente, não acredito em um retorno à normalidade. Esse cenário mudou e não volta. Empresas diminuíram seus altos custos e aumentaram a sua produtividade. O varejo e o comércio foram obrigados a se atualizarem nos processos digitais. Iniciaram vendas e obtiveram êxitos. Restaurantes passaram a vender por aplicativos e aumentaram sua lucratividade livrando-se de alguns encargos. Profissionais liberais aumentaram o alcance ao seu público alvo. A grande vantagem está na adaptação desse profissional e quem não se adaptar será excluído desse novo normal. A empresa ou profissional que investir na capacitação estará em consonância com esse novo momento. Infelizmente, existirá uma seleção natural daqueles que se adaptarem melhor e mais flexíveis a esse novo perfil.

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