Mercado de Arte

O colorido do Brasil retratado em obras de arte

06 de Setembro de 2018 . Por Eduardo Oliveira

Claudio Tozzi

São Paulo SP 1944

Pintor.

Claudio José Tozzi é mestre em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Em suas primeiras obras, o artista revela a influência da arte pop, pelo uso de imagens retiradas dos meios de comunicação de massa, como na série de pinturas Bandido da Luz Vermelha (1967), na qual remete à linguagem das histórias em quadrinhos. O artista trabalha com temáticas políticas e urbanas, utilizando com freqüência novas técnicas em seus trabalhos, como a serigrafia. Em 1967, seu painel Guevara Vivo ou Morto, exposto no Salão Nacional de Arte Contemporânea, é destruído a machadadas por um grupo radical de extrema direita, sendo posteriormente restaurado pelo artista. Tozzi viaja a estudos para a Europa em 1969. A partir dessa data, seus trabalhos revelam uma maior preocupação com a elaboração formal e perdem o caráter panfletário que os caracterizava. Começa a desenvolver pesquisas cromáticas na década de 1970. Nos anos 80, sua produção abre-se a novas temáticas figurativas, como é possível observar nas séries dos papagaios e dos coqueirais. Apresenta também a tendência à geometrização das formas. Na realização dos quadros utiliza um rolo de borracha de superfície reticulada, o que agrega novos aspectos às suas obras, como textura e volumetria. Passa a realizar trabalhos abstratos, nos quais explora efeitos luminosos e cromáticos. Cria painéis para espaços públicos de São Paulo, como Zebra, colocado na lateral de um prédio da Praça da República e outros ainda na Estação Sé do Metrô, em 1979, na Estação Barra Funda do Metrô, em 1989, no edifício da Cultura Inglesa, em 1995 e no Rio de Janeiro, na Estação Maracanã do Metrô Rio, em 1998.

A História que se foi

04 de Setembro de 2018 . Por Eduardo Oliveira

"O maior crime com o patrimonio cultural".

A mais lamentável de todas as perdas é a perda da história. O Museu Nacional foi destruído, assim foi embora um parte da nossa memória, do nosso patrimônio cultural, dos documentos que fizeram e que legitimavam a nossa história. Quando um país só visa o crescimento vertical, ele assume que não acredita na importância da cultura como principal instrumento de educação. Faço uma pergunta, onde estava a brigada de incêndio do Museu? Se fosse no Palácio do Planalto, ou na residência pública de algum Governador, teria chegado a esse ponto? Já sabemos a resposta. Não sejamos ingênuos em acreditar que foi um acidente, se tenho uma casa onde contém inúmeros produtos químicos, essa casa tem dezenas de anos e não faço uma prevenção, não cuido, claro que estou sabendo do risco de um acidente. Esse risco, tanto o secretário de Cultura do Rio, como o Superintendente do IPHAN e o Ministro da Cultura, estavam cientes. Essa tragédia criminosa foi mais um resultado da crise política que estamos vivendo. Quem são os responsáveis?  E o nosso futuro, você acredita que algum desses candidatos irão olhar para a cultura? Não tem como acreditar. Só os vejo como imorais. Uma coisa eu sei, está sendo muito ruim ver e sentir o nosso país morrer. Um país que perde seus registros históricos por improbidade de gestão administrativa é um país sem credibilidade e sem respeito.



DA TERRA BRASILIS À ALDEIA GLOBAL

25 de Agosto de 2018 . Por Eduardo Oliveira

DA TERRA BRASILIS À ALDEIA GLOBAL 

Em comemoração aos 45 anos da Unifor, a Fundação Edson Queiroz realiza a exposição “Da Terra Brasilis à Aldeia Global”, reunindo 250 obras dos principais artistas do Brasil e de estrangeiros que o retrataram, abrangendo arco temporal que se estende do século XVI ao século XXI, iniciando com o livro America Tertia Pars, publicado na Europa em 1592, e finalizando com obras contemporâneas. A exposição está acontecendo e irá até 24 de março de 2019, no Espaço Cultural Unifor.

A mostra, que reúne parte do acervo da própria Fundação Edson Queiroz, tem a curadoria de Denise Mattar, que optou por uma abordagem histórica e didática, contextualizando os principais movimentos da arte brasileira. “Além disso, procuramos mostrar para o público que cada um desses movimentos reflete um momento histórico, político e social e que a arte acaba por transcender todos esses marcos”, salienta. Como novidade, a exposição reúne também livros raros, pertencentes à coleção da Biblioteca Acervos Especiais, da Unifor.

Subordinada durante séculos às correntes artísticas internacionais, a arte brasileira, segundo explica Denise Mattar, sempre viveu constante processo de cópia/repetição, adaptação/transformação, conseguindo algumas vezes imprimir à sua produção um sabor nacional. Barroco, Academia, Modernismo, Abstracionismo, Concretismo, Nova Figuração, Conceitualismo, Transvanguarda e Neoexpressionismo foram se sucedendo de forma cada vez mais veloz. “Somente a partir do final da década de 1980, esse quadro começou a se reverter, abrindo maior espaço para a internacionalização e integração ao circuito de arte mundial – para o bem e para o mal...”, frisa.

Além de traçar esse roteiro com o exterior, a exposição “Da Terra Brasilis à Aldeia Global” aponta como a questão centro e periferia se repetiu internamente no Brasil, sempre privilegiando os centros econômicos. No início da colonização, até então situados nas regiões Norte e Nordeste, esses centros deslocaram-se para o Rio de Janeiro, em função da descoberta do ouro – até a absoluta predominância do eixo Rio-São Paulo.

“Dessa dinâmica resulta o fato de que alguns artistas significativos, por viverem fora dessa área, não chegaram a integrar o chamado circuito de arte, enquanto que outros alcançaram essa meta ao preço de sair de sua terra natal. O foco para ilustrar essa questão será a produção de artistas cearenses de vários períodos, apresentados na mostra integrados aos fluxos artísticos aos quais pertencem”, ressalta a curadora. Segundo ela, “a excepcionalidade da coleção da Fundação Edson Queiroz permite contar essa história, quase sem lacunas, pois seu acervo excede em qualidade e quantidade a de muitos museus do eixo Rio-São Paulo, acentuando sua importância dentro da discussão proposta”.

A curadora ressalta que a dinâmica das relações centro e periferia está tomando novos e inesperados rumos, pois o inevitável e irreversível processo de globalização vem desorganizando tudo, em alta velocidade. “A queda do muro de Berlim, as fissuras no bloco europeu, a eleição de Trump, a ascensão econômica da China, a falência do comunismo, a fragilidade do capitalismo e, principalmente, a Revolução Digital, com computadores, smart-phones, internet e redes sociais, nos colocou frente a um mundo novo para o qual não estamos minimamente preparados, tornando quase impossível fazer qualquer previsão do futuro. A própria relação entre as periferias também se alterou e não consegue encontrar formas definidas”, destaca.Neste panorama, circula hoje o artista plástico brasileiro. “Ele se move solitário, tendo como objetivo principal desenvolver sua obra e conseguir sua inclusão no circuito internacional. Nunca, nas artes plásticas, essa inserção foi tão possível como agora. As barreiras continuam presentes, e os meios de ação para um artista são muito maiores num país desenvolvido – mas a busca de talentos tem ultrapassado fronteiras”, complementa Denise Mattar. Para ela, artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark ou Tarsila não teriam passado despercebidos no exterior por tantos anos. Em contrapartida, essa procura da internacionalização tem levado bons artistas a deixar de lado suas pesquisas pessoais e sua matriz nacional para se adaptar às correntes mais aceitas por este circuito, algumas vezes com resultados decepcionantes. “Ser universal sem se perder de suas origens é um grande desafio”, conclui.

"Santos-Dumont Coleção Brasiliana Itaú"

21 de Agosto de 2018 . Por Eduardo Oliveira

"Santos-Dumont – Coleção Brasiliana Itaú"

Nos livros escolares, ele é um herói nacional. Inventor do aparelho aéreo mais pesado que o ar, primeiro a alçar voo sem a necessidade de rampa para lançamento. Nas “fotos oficiais”, um homem sisudo, de colarinho alto e chapéu panamá amassado.

Mas Alberto Santos-Dumont foi muito mais que isso. Um bon vivant risonho, que conviveu com nobres, artistas e grandes inventores. Um inventor determinado, que inovou em áreas além da aviação. Um homem melancólico e com destino trágico, profundamente desapontado com os usos bélicos de seu maior invento.

Estes e outros aspectos da personalidade de Alberto Santos-Dumont, praticamente esquecidos pela repercussão do aeroplano 14 Bis – cujo primeiro voo acaba de completar 110 anos – serão exibidos ao público cearense na Mostra Santos-Dumont – Coleção Brasiliana Itaú. A exposição fica em cartaz até 9 de dezembro de 2018, no Espaço Cultural Unifor, localizado no prédio da Reitoria da Universidade de Fortaleza.

“Orgulhosamente, um brasileiro concretizou o sonho de milhões de pessoas pelo mundo. Não do modo poético, com asas de Ícaro, mas por meio de modelos que envolvem muito mais engenharia. E foi com a mente nas nuvens e as mãos firmes na terra que Santos-Dumont projetou, construiu e fez voar o primeiro avião do mundo”, destaca Lenise Queiroz Rocha, presidente da Fundação Edson Queiroz.

Com mais de 500 peças, a curadoria é da jornalista Luciana Garbin e do Itaú Cultural. A linha curatorial se sustenta em pilares que marcam a trajetória do inventor, como inovação, ciência e empreendedorismo. Um dos destaques da mostra é a réplica, em tamanho original, da aeronave Demoiselle, considerada sua obra-prima. 

“A mostra sobre Santos-Dumont identifica-se profundamente com a Universidade de Fortaleza não só pelo aspecto cultural, mas sobretudo em vista da trajetória desse grande inventor brasileiro, pautada pela ciência, inovação e empreendedorismo, pilares que também fazem parte da atuação da Unifor. Esperamos que o público visitante, em especial crianças, adolescentes e nossa comunidade acadêmica, inspire-se nos ideais e realizações de Santos-Dumont, cujo legado permanece em nossa sociedade até hoje”, afirma o prof. Randal Pompeu, vice-reitor de Extensão da Unifor.

Como ocorre em toda abertura de exposição da Unifor, a curadora fará uma palestra no Teatro Celina Queiroz, no dia 3 de agosto, 9h30, no Teatro Celina Queiroz. Direcionada para todos os públicos, a apresentação se estende sobre a mostra, detalhando os espaços, a cronologia e a escolha dos arquivos, documentos, objetos e fotos. A exposição foi apresentada em São Paulo, em 2016, e em Cuiabá, no ano passado, antes de chegar a Fortaleza.

Sérvulo Esmeraldo

02 de Janeiro de 2018 . Por Eduardo Oliveira

  Compor histórias em blocos de madeira não foi suficiente. Sérvulo Esmeraldo não era narrador, não lhe interessavam os causos feitos, as figurações fabulares. Suas obras continham um mundo próprio, esgotavam-se em sua realidade e se expandiam em vibrações matematicamente calculadas. A arte do garoto do Crato não cabia nos limites de seu território.

Mas foi esse território que lhe deu luz, sombras e movimento. Foi na Chapada do Araripe que reconheceu a importância da linha do horizonte. A linha. A luz. O Crato. Não à toa, foram esses os termos escolhidos para nomear sua “exposição dos sonhos”, marco zero das comemorações dos seus 88 anos, em setembro e outubro de 2016.

“Tudo começou no Crato”, costumava dizer, preparando o ouvinte para uma longa história. Uma história que saiu do Engenho Bebida Nova e passou por Fortaleza, São Paulo e Paris. Uma história de pinturas, gravuras, esculturas e joias. Da Terra da Luz à Cidade Luz, Sérvulo desafiou a física, desdenhou da gravidade e excitou audiências com a eletricidade estática de suas criações.

De criança, chamava de “astúcias” suas experiências, como conta em um esboço de autobiografia jamais finalizada. Alterava o curso das águas de um riacho, criando comportas e canais com varas de cerca. O grande casarão de janelas azuis, cercado pela natureza caririense, era o mundo de que dispunha.

Seduzido pelo efêmero, encontrou nos ciganos que fincaram acampamento na propriedade da família a representação do fugidio. Soube que outros mundos eram possíveis. Deles, aprendeu o gosto pelo cobre martelado, passando a produzir pequenas joias que estariam presentes em todas as fases de sua trajetória.

Descobriu Goeldi por acaso, em reportagem publicada em panfleto do Consulado Britânico sobre a gravura no hemisfério ocidental. Inspirado pelo mestre expressionista, decidiu virar xilógrafo. Chegou a ilustrar livrinhos de novenas antes de viajar a Fortaleza, onde travou contato com outros artistas e participou do VI Salão de Abril, em 1950.

Mas se suas vibrações não cabiam no Crato, tampouco se limitavam à Capital. Mudou-se para São Paulo, cidade em ebulição por conta da realização da I Bienal Internacional de Arte, em 1951. Fez grande amigos, estudou arquitetura e foi cronista de arte do Correio Paulistano até agarrar a oportunidade de ir para a Europa como bolsista do governo francês.

Quando por fim voltou ao Ceará, no fim dos anos 1970, já tinha trajetória estabelecida e obras espalhadas pelo Brasil - de São Paulo ao Acre - e em coleções particulares de todo o mundo. Em Fortaleza, virou símbolo de praças, avenidas, prédios públicos e universidades.

Sérvulo se despede mas continua. Como dizem, não é um adeus, mas um até logo. Vamos encontrá-lo outras tantas vezes, pelos lugares mais insuspeitos. Em nosso último encontro, em outubro do ano passado, me presenteou com um desenho. Na assinatura, escreveu “Esmeraldo. Tudo vivo” O artista dos ângulos exatos permanece tão firme quanto suas linhas.